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Eu dormia, profundamente eu
dormia. Num dado momento, acordei
assustada. Abrí os olhos e nada consegui ver.
Tudo era escuridão e si-
lêncio; solidão! Fechei os olhos, como se
quisesse acordar novamente,
e quando tive coragem de abrí-los, notei uma luz
que me atraía. Era
fraca, penetrando por entre as cortinas
esvoaçantes da janela. Olhei a
meu redor e nada consegui ver, apenas aquela luz
que me atraía e ao
mesmo tempo me causava medo. Mais uma vez fechei
os olhos. Dessa vez
apertando-os para ter certeza de estar bem
acordada, e não sonhando...
Eu estava realmente acordada. Conseguia ver o
quarto. Estava vazio.Sem
móveis. Frio. Apenas eu sobre uma cama que não
era a minha. Mas ... e
aquelas cortinas luminosas balançando à minha
frente, me chamando ...
Consegui, então, me levantar. Curiosa e com medo
aproximei -
me, vagarosamente. As cortinas balançavam. E à
medida que me apro-
ximava, a luz diminuía. Cheguei junto à janela.
Era uma dessas jane-
las baixas, com balcão dando vista para rua. E
como estava deserta a
rua, que frio fazia lá fora ... Hesitei. Acabei
por criar coragem e
pulei do balcão para rua. Percebi então a luz,
novamente. Estava mais
perto agora. Vinha de outra janela, aproximei-me
com receio. Não que
ria ser vista. Não reconhecia aquele lugar, sei
lá, estava confusa ,
era tudo escuro, e aquela luz ...
 Mas que estranho,
aquela janela era de minha casa. Da casa
de meus pais, como podia ser isso! Me aentia
cada vez mais confusa.
Tentei olhar através da janela. Era muito alta.
Apesar de tudo estar
tão estranho e confuso, abandonei o medo e me
dirigi até a porta da
casa. Encontrava-se aberta. Entrei, e logo me
senti segura. Lá esta-
vam todos reunidos: meus avós, pais e irmãos,
Pedro, Marcos e Paulo.
Puxa! Não sei por que, mas como sentia saudades
de todos! Tive o ím-
peto de correr ao encontro de meus pais.
Sentados, ao lado de meus
avós, meus irmãos. Mais à frente, em pé, papai e
mamãe. Todos se
entreolhavam de quando em quando, pesarosos,
tristes e cansados. Nunca os tinha
visto assim e me preocupei.
Vagarosa, com certo receio, fui até eles.
Pareciam não me
ver ou notar a minha presença naquela sala.
Continuavam alí, nas suas
posições, com seus olhos fixos e tristes. Fiquei
intrigada. Pergun-
tei ao Marcos o que acontecia e por que não me
viam... Não obtive
resposta.,Gritei desesperada, mas nada
aconteceu.

Meus avós e irmãos se levantaram, seguindo meus pais que se
dirigiram para sala de jantar. Era da janela
dessa sala que vinha a
luz. Uma luz fraca, trêmula ... Fui logo ver o
que se passava lá. Fi-
quei paralizada, sem voz!... Acontecia naquele
momento um velório. Eram
velas a clarear a sala. Sobre a mesa de jantar
estava o caixão, e , à
sua volta, tios, amigos, vizinhos, enfim muita
gente conhecida que nem
sequer olhava para mim que chegava.
Apesar de nunca ter feito isso antes, fui espiar
quem era o
morto. Gritei!... Era eu quem estava lá. Eu me
via morta naquele caixão,
coberta de flores. Todos tristes à minha volta,
me olhando, sensação
horrível! ... Parecia um pesadêlo. Como poderia
eu estar morta, como?...
Sim ...Uma alucinação!... Alucinação é o que
era, alucinação ... Estou me
recordando agora ... Alucinações, quantas eu
tive; algumas me levaram
à lugares e situações maravilhosas, mas outras,
à verdadeiros infernos
de aflição. É isso! Agora me lembro ...

Foi na casa de Marta, com nossos amigos,
curtindo, como sem-
pre fazíamos. Nós nos reuníamos para nos
alienar. Queríamos esquecer
os problemas ... Viajávamos ... Um fuminho aquí,
uma picada alí, e as-
sim passávamos dias naquela casa ! ... E como
viajávamos !...
Mas... Estou me recordando de que o Tom não
estava lá naqueles últimos
dias... Eu andava deprimida, pois a gente se
curtia muito. Acho que ele
não aguentou a barra. Eu grávida, de uns três
meses,e ele...Não era o
tipo para encarar tal problema ...
Mas o que foi que aconteceu. Por que eu estava
lá morta, meus
pais chorando ... Meu pai, sim, ele me pôs fora
de casa!... Quando soube
que eu estava grávida foi aquela confusão. Mamãe
tentou segurar a
barra, mas não adiantou, ele não se conformava
de eu não saber quem
era o pai de meu filho. Nossa!... Mas como
poderia saber!... Naquelas festi -
nhas da Marta, eu nem me lembro o que acontecia
... É, mas ele nunca
compreenderia mesmo. O que não diriam os amigos!

Pois é isso, eu fui morar com Marta, conhecí
Tom, e estava tu-
do bem, até que ele desapareceu. Fiquei
desesperada. Nada mais me in-
teressava. Meus pais e toda família me
desprezavam. Minha cabeça, cada
vez mais confusa ... E aquelas festinhas, aquele
barulho, os sonhos...
Senti vontade de evaporar ...
É, eu estava morta mesmo. Uma dose excessiva fez
o serviço. E
agora... Será que terei paz ? ...
Ligia Scholze Borges Tomarchio
ligiasbt@terra.com.br


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