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O Ermitão



Nesse dia o mar estava calmo. As ondas corriam lentas. Arrasta-
vam algas e mariscos de suas profundezas até a praia. A areia brilhava
sob o sol forte e o céu confundia-se com o azul do mar no horizonte...

Alguns navios lá estavam, como estátuas à deriva, balançando ,
balançando ...

Poucas pessoas faziam seu passeio matinal na praia. Não era é-
poca de veraneio. Sem turistas. Apenas os costumeiros moradores da
praia de Itararé.

E lá estava eu, do outro lado do mar e da avenida. No meu bura-
co. No alto do morro ainda úmido da chuva que castigara por toda a
semana.

Levantei para descer o morro, a fim de encontrar alguma comida.

Há uma pequena trilha por onde posso descer. É íngreme. Para
os que olham para o morro, devem se perguntar, como consigo subir ou
descer. Acho até acreditarem que nunca desça, pois raramente alguém me
vê embaixo.

Ouço muitos comentários a meu respeito, principalmente quanto
a minha aparência. Mas não me importo. Sou e vivo assim, por opção e
não me interessa o resto do mundo.

Não gosto de falar muito. Quando me chamam para perguntar algo,
logo faço qualquer sinal para fazê-los desistir.

Já vivi muito ... A escolha de morar nesse morro foi a melhor
que pude fazer.

Nele tenho tudo de graça. A própria natureza é quem me abriga
e me dá sustento.

Não vivo só. Tenho um cão companheiro. Alguns ratos passam sem-
pre a procura dos restos de alimentos que guardo para essa finalidade.
Pombos, passarinhos e corvos, também visitam minha morada. Nos entende
mos bem, sem interferências ...

Dizem que sou o "velho do saco", aquele que rouba criancinhas.
Ou, ainda, que sou louco. E que meu aspecto é repugnante. Porém, nada
é verdade. Talvez, quanto a minha aparência tenham razão, pois nunca
me vejo.

As crianças, muitas vezes, jogam pedras e outros objetos para
o alto do morro, tentando me provocar. Não ligo. Dessa forma, logo de-
sistem e se vão.

Alguns adultos acompanhados de seus filhos olham admirados e
dizem às crianças para tomar cuidado ao passar sozinhas perto do morro.
Explicam às pobres criaturas, que ali, no morro, vive um homem mau,que
rouba crianças !

-- Como os adultos pertubam as crianças com tantas bobagens! -
-Penso, contrariado.

-- Ah! Lá vem o trem apitando ...

Me recordo de quando aqui cheguei. Tomei um trem em São Paulo.
Não tinha dinheiro para continuar viagem, daí me atiraram aqui embaixo,
onde agora, o trem está passando. Seu trilho separa o morro da calçada,
que é cercada por um muro baixo, fácil de pular.

-- Não vou descer agora. - penso - Ficou tarde. Muita gente na
rua. Vou esperar.

Nesse momento, o apito do trem soava longe, quando percebi uma
mulher e duas menininhas. Estavam na calçada, olhando para mim. Devem
ter parado para ver o trem passar e acabaram por me descobrir. Levan -
tei curioso para vê-las e até tentei chegar um pouco mais à vista das
três.

Estas vendo-me aproximar, deram um passo para trás receosas e
continuaram a me observar.

E assim ficamos, os quatro, por uns momentos, hipnotizados.

Senti no olhar daquela mulher, uma grande tristeza. As meninas,
já apresentavam uma certa admiração em seus olhos brilhantes e vivos.

Passado o primeiro contato, consegui entender, através do pen
samento - sim, porque consigo algumas vezes ler os pensamentos - o que
as três queriam de mim.

Elas querem que eu conte minha vida. A mulher, que descobri
ser repórter, deseja escrever uma matéria para o jornal sobre os velhos
abandonados. E as crianças querem sentar no meu lado e escutar histó -
rias fantásticas de um velho avô que já não existe nessa vida.

-- Como gostaria de ajudá-las! Não posso, poque eu as assusta-
ria com minhas histórias e a reportagem nem seria aceita pelo diretor
do jornal.

Pensando assim, acenei para elas, que corresponderam e voltei
para meu canto.

Quando sentei, meu cão, que não tem nome, disse-me:

-- Está certo amigo. Não há necessidade de sair por aí contan-
do sua vida. Mas quanto a sua aparência ... Podia melhorar um pouco ,
não acha? Quem sabe se tomasse um banho de mar e trocasse suas rou-
pas ... Não chamaria tanto a atenção!

Fiz de conta que não ouvi. Única coisa que chamou minha aten-
ção naquele momento foram algumas lesmas instaladas numa panelinha fu-
rada e cheia de folhas derrubadas pela chuva. Como eram lentas ... Os
corpos acinzentados, cobertos por uma gosma transparente, brilhavam ao
sol, roubando o verde das folhas e o pouco de brilho da panela de me
tal. Devoravam vagarosas aquelas folhas. Deve ser o prato predileto de
Ias ... A uma dessas lesmas prestei mais atenção. Após comer um pedaço
de folha, saiu da panelinha e, rastejando muito devagar, rumou solitá-
ria para o alto do morro.

Praticamente, passei todo o resto do dia a observar aqueles mo
luscos. Quando todas já haviam partido, o sol escondia-se atrás de mim.
O céu avermelhado, completou a felicidade daquele dia ... Perdido, as-
sim, em deslumbramento e devoção ao crepúsculo, compeendi que as les-
mas queriam me mostrar algo. Assim como aquelas três, a mulher e as me
ninas.

Não sei bem o quê. Minha sensibilidade nunca falha e, dessa vez,
alguma mensagem deveria haver naquilo tudo ...

Assim permaneci toda a noite, pensando, pensando ... Até que
adormeci.

Outro dia ensolarado se fez, quando despertei assustado. Tive
um sonho triste. Não sei bem se foram lembranças ou um sonho, mas enfim,
entendi a mensagem quase indecifrável do dia anterior.

Vi a mulher e as duas meninas indo à praia tomar sol e brincar
na água salgada. Estavam acompanhadas de um homem, jovem como a mulher.
Esse homem era eu, há muitos anos. A mulher e as crianças foram para
o mar e eu, fiquei sentado na areia quente a observá-las. Naquele dia
o mar da praia de Itararé estava bravo. Não me preocupei. Elas sabiam
nadar, apenas alguns instantes de distração, fizeram com que as três
sumissem entre as ondas ariscas. Todas foram encontradas, mais tarde ,
pela guarda costeira, mortas. Como sofri tal perda ! Parecia até mesmo
que eu as havia perdido para o mar ...

Sonho ou não, aquelas três me trouxeram lembranças tristes.Con-
tinuarei a ser e viver como sempre. Enclausurado em pensamentos e con-
versas com meu cão e o mar.

Com o mar, a relação é de mágoa, no entanto, me reservo o di-
reito de ser o guardião dessas águas enganosas. Águas em que não entro,
apenas observo sua beleza e reflexo.

Continuo minha vida de ermitão. Solitário por opção.

Perdido no esquecimento e passado distantes ...


Ligia Scholze Borges Tomarchio
ligiasbt@terra.com.br


 

 

 

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